Lampião, mocinho ou bandido?

segunda-feira, 10 de maio de 2010

SÉCULO XIX: O COTIDIANO DE PARATY


Gislaine de Paula Silva

Graduada em História pelo Centro Universitário de Barra Mansa, aluna do curso de Pós-Graduação Latu-Sensu em História do Brasil do Centro Universitário Geraldo Di Biase.

RESUMO



Este artigo tem por objetivo tecer uma abordagem histórica sobre a cidade de Paraty. Pretende apresentar um breve histórico da cidade e aspectos do cotidiano durante o século XIX. Foi elaborado a partir de pesquisa bibliográfica, análise de documentos e reproduções de documentos da Câmara Municipal de Paraty. Este trabalho ainda incipiente demonstra a história regional, possibilitando o aprofundamento da pesquisa.



Introdução:

A região onde hoje se situa a cidade de Paraty está localizada na baía da Ilha Grande; os primeiros povoadores chegaram ao final do século XVI. A data da fundação de Paraty é desconhecida, a informação popular e nas publicações que se tem é que a condessa Maria Jácome de Melo doou parte de sua sesmaria para a construção do povoado de Paraty.

Várias tribos já habitaram as terras paratienses, dos deslocamentos populacionais surge à trilha Guaianá que deu origem ao caminho do ouro. Com a descoberta do ouro em Minas Gerais, a rota de escoamento do ouro ligava a Vila de Paraty ao caminho dos paulistas; havia um intenso movimento no porto. Esses acontecimentos se constituem em fatos relevantes a se estudar, pois evidenciam a importância estratégica da cidade durante a “Idade do Ouro” no Brasil.

Paulistas vindos de São Vicente constituem o núcleo colonial da Vila de Paraty e em meados do século XVII, a vila foi elevada a distrito de Angra dos Reis; em 1667 o distrito é transformado em Vila de Nossa Senhora dos Remédios de Paraty; acontecimento este, que mostra o desenvolvimento da cidade.

No início do século XVIII acredita-se que a maçonaria exerceu forte influência na urbanização da Vila de Paraty, tinha um dos portos mais importantes, surgiram novas casas, igrejas estradas etc.

Já no século XIX (período de destaque da pesquisa), houve o início do plantio do café, parte do café do alto Vale do Paraíba era escoado no porto, houve o crescimento cultural e urbano da vila. Em 1844 a vila foi elevada à categoria de cidade que ficou sendo chamada de Paraty.

Existem vários documentos da câmara municipal referentes a esse período da história da cidade como, por exemplo: códigos de posturas e documentos relativos à evolução urbana, escravos, estradas e caminhos, iluminação publica, cemitério, etc. Tudo isso faz com que de certa forma possamos conhecer como esses acontecimentos alteraram o cotidiano da população paratiense, torna-se assim relevante pesquisas nesse sentido, no caso deste trabalho foram analisados apenas algumas reproduções de documentos. A população da cidade durante o século XIX era composta por africanos escravizados, descendentes dos antigos colonos, índios e mestiços.

Devido à importância da história de Paraty para a história nacional nos aspectos econômicos, sociais e culturais procurei responder os seguintes questionamentos: Quais os acontecimentos marcantes da cidade de Paraty durante o século XIX? No século XIX houve mudanças significativas na cidade?

A história de Paraty ainda está muito ligada a imóveis, política e economia, pois as pesquisas dão ênfase quase sempre nesse aspecto, esta, no entanto, foi desenvolvida envolvendo aspectos do cotidiano paratiense ao longo do século XIX.

Esta pesquisa procura valorizar e expor a importância da história da cidade de Paraty no contexto nacional e local; destacar aspectos do cotidiano da cidade durante o século XIX, já que é uma linha de pesquisa que praticamente não é analisada e abordada.

A história regional apesar de muito importante, quase não é valorizada por boa parte da população, com isso muitos documentos e objetos vão se perdendo e a população local aos poucos vai perdendo sua identidade.

A primeira parte do trabalho explana um breve histórico da cidade de Paraty, onde foi utilizada uma vasta bibliografia sobre a história de Paraty. A segunda parte do trabalho explana a história do cotidiano de Paraty durante o século XIX, através de reproduções de documentos da câmara Municipal da cidade que foram apenas transcritos e não foram analisados minuciosamente, além da análise desses documentos utilizei nesta pesquisa um jornal da cidade de 1883 e descrições de acontecimentos que abordem o cotidiano da cidade. Procurei encontrar nesses documentos aspectos que evidenciem o cotidiano de Paraty daquela época (século XIX).


Paraty: breve histórico

A região onde hoje se situa a cidade de Paraty está localizada na baia da ilha grande. Em 1502 essa baia foi “descoberta” por Gonçalo Coelho, mas só depois de mais ou menos vinte e oito anos depois a região começou a ser povoada.

A data da fundação de Paraty é desconhecida, a informação que se tem é que a condessa Maria Jácome de Melo doou parte de sua sesmaria para a construção do povoado de Paraty. Em vinte e oito de fevereiro de 1667 através de uma carta régia o município foi criado separando-se da vila da Ilha Grande, hoje Angra dos Reis.

Várias tribos já habitavam as terras paratienses, dos deslocamentos populacionais surge à trilha guaianá que deu origem ao caminho do ouro. Com a descoberta do ouro em Minas Gerais, o que era apenas uma trilha de índios se torna o caminho do ouro; inicia-se o “ciclo do ouro”; havia um intenso movimento no porto; a cidade tinha importância estratégica durante a “Idade do Ouro” no Brasil, pois boa parte do ouro e pedras preciosas de Minas Gerais saia do porto da vila de Paraty. Após a decadência da extração do ouro, o porto da cidade continuou movimentado, recebendo mercadorias que eram destinadas ao sul de Minas grais e São Paulo.

Paulistas vindos de São Vicente constituem o núcleo colonial da vila de Paraty e em fatos do século XVII, a vila foi elevada a distrito de Angra dos Reis; em 1667 o distrito é transformado em Vila de Nossa senhora dosa Remédios de Paraty; acontecimento este, que mostra o desenvolvimento da cidade.

No início do século XVIII, Paraty se torna mais importante devido ao seu porto, que era o segundo mais importante da colônia. Vários engenhos de cana-de-açúcar acabaram movimentando a economia da cidade; surgiram novas casas, igrejas, estradas etc.

Neste mesmo século a maçonaria exerceu forte influência na urbanização da cidade como afirma Diuner Mello:

“Melhor campo não poderia existir para os maçons do que um lugar onde soubessem tudo da Europa e pudessem espalhar a informação para outros irmãos, dispersos pelo interior do país através das tropas serra acima. Daqui também poderiam enviar à Europa informações e notícias do que aqui aconteceria.
(...) Escolhido o lugar onde se implantaria, m faz-se necessária uma sinalização codificada que informasse aos que chegarem a existência e o funcionamento de uma loja ou de um agrupamento de maçons, facilitando, assim, o apoio e a acolhida na nova terra, e o recebimento fiel das informações enviadas. Começaram, então a surgir, no arruamento da cidade e em alguns prédios, os sinais e os símbolos (...). Vemos, assim, que a maçonaria já exercia forte influência na urbanização da então Vila de Nossa Senhora dos remédios de Paraty no início do século XVIII”.(Mello, p. 17, 2006)

Com o advento do café no Vale do Paraíba no século XIX, houve início do plantio do café em fazendas de Paraty, dando um alto lucro inicialmente, mas devido à implantação das ferrovias o movimento do comércio caiu vertiginosamente, iniciando assim a decadência da cidade, além disso, a terra era exaurida e o preço dos escravos estava cada vez maior dificultando o lucro. Por causa da implantação de ferrovias o movimento no porto diminuiu e fazendas foram abandonadas, consequentemente parte da população deixou a região.

Em 1844 a Vila de Nossa Senhora dos Remédios de Paraty foi elevada à cidade, ainda neste século foi aprovado o Código Municipal de Posturas; as atividades comerciais paratienses entraram em decadência, houve também o fim da escravidão, fazendo com que fosse eliminada a principal mão-de-obra das fazendas de Paraty.

Como aspectos do cotidiano da cidade, Thereza Maia e Tom Maia descrevem um acontecimento:

“Em meados do século XIX decidiu-se demolir a capela de São Roque, para aproveitar o seu material nas obras, que então se realizavam, de reconstrução da matriz de Nossa Senhora dos Remédios”. (Maia, p. 24, 2000)

O que hoje é a atual matriz da cidade vem do século XIX; a Irmandade do Santíssimo Sacramento organizava o orçamento para a nova matriz.

Um pouco distante do centro da cidade de Paraty, existia um lugar chamado de Paraty Mirim, onde também existia um porto onde os navios deixavam escravos. Existiam muitos escravos por lá, terras, engenhos; hoje existem descendentes de ex-quilombolas no atual Paraty Mirim. E o com a construção da ferrovia em 1877, ligando o Vale do Paraíba, em São Paulo, ao Rio de Janeiro, isso fez com que Parati entrasse em decadência.

Em 1888 houve a abolição da escravidão, após esse acontecimento a cidade que era praticamente auto-suficiente no seu abastecimento, passou a importar alimento, as plantações de cana de açúcar desapareceram, dando lugar a pecuária nas antigas fazendas e a plantação de banana; os tropeiros que sempre utilizavam à cidade abandonaram as estradas dos guaianos.

No fim do século XIX, a cidade com suas riquezas naturais, o seu desenvolvimento econômico foi baseado durante muito tempo numa lógica mercantilista priorizando a circulação de produtos da zona interior.

Paraty durante muito tempo teve como característica um lugar de pesca artesanal, com baixo nível de comercialização, mas ao final do século XVIII e inicio do XIX essa situação vem mudando, como afirma o trecho: “Na verdade, não é senão antes do final do século XIX que sob influencia de um contexto econômico regional negativo, alguns habitantes iniciam uma pratica mais especializada”. (Diegues, pág.89, 2005).

Durante parte do século XX, pouco se restava do progresso, foram feitos algumas obras publicas na cidade, o comércio era insignificante; a pobreza tomava conta da cidade.

Somente na década de 1950 que o cotidiano dos moradores começa a mudar substancialmente, foi construída uma estrada de rodagem ligando Paraty à cidade de Cunha que fica no estado de São Paulo. Na década de 1970 começa a construção da BR 101, com a finalização da obra a cidade finalmente desenvolve sua vocação turística; novos serviços são implantados na cidade. Neste século XXI a cidade continua desenvolvendo o seu potencial turístico, aliado a preservação do patrimônio histórico e ambiental.

Pode-se dividir a história de Paraty através de ciclos, veja a tabela abaixo:

TABELA 1 – Cronologia Histórica de Paraty
Regimes Políticos variáveis
Colônia

Império
República


Ciclos
econômicos XVI-XVII XVIII
povoamento Período
e aurífero
expansão
crescimento
contínuo Fim do século XIX
Período cafeeiro e decadência XX
Período industrial e alternância
crescimento
decrescimento
Produção
exportação agricultura, pecuária, especiarias, sal, aguardente, açúcar, comércio e alimentação agricultura,pecuária,
café e banana pesca, turismo, banana e comércio
Fonte: Enciclopédia Caiçara: o olhar estrangeiro. V.3 (2005 p. 25).



Século XIX: o cotidiano paratiense

O século XIX foi marcado pela cultura cafeeira no Vale do Paraíba. Algumas fazendas em Paraty plantaram o café, que tiveram lucro por pouco tempo, pois a cidade começou a iniciar sinais de estagnação, a; as atividades comerciais paratienses também entraram em decadência.

Paraty durante muito tempo teve como característica um lugar de pesca artesanal, com baixo nível de comercialização, mas ao final do século XVIII e inicio do XIX essa situação vem mudando, conforme afirma o trecho abaixo:

“Na verdade, não é senão antes do final do século XIX que sob influencia de um contexto econômico regional negativo, alguns habitantes iniciam uma pratica mais especializada”.(Diegues, p.27,2005)

Segundo Diuner Mello em seu Livro Paraty Estudante no ano de 1805 existia na Vila mais de 5 mil escravos incluindo zona rural e urbana. Em 1808 houve a chegada da família real portuguesa no Brasil, esse acontecimento trouxe mudanças no modo de vida das pessoas do Rio de Janeiro, pois trouxeram o luxo da Europa para o Brasil. A vila de Paraty por estar próxima a corte, fez com que muitos habitantes procurassem ter as novidades da corte como, louças, tecidos, prataria inglesa e portuguesa, tecidos caros e etc.

No ano de 1822 (ano da independência do Brasil em relação a Portugal) Paraty era um núcleo comercial, onde a classe seleta composta por homens de destaque da vila compartilhava entre si os ideais liberais. Nesse mesmo ano houve o lançamento da pedra fundamental da Santa Casa de Misericórdia, local destinado ao tratamento de enfermidades.

“Terminado o ato o Comandante governador Geral ergueu as vivas às suas majestades imperiais, à Dinastia de Bragança Imperante no Brasil e a independência no Brasil e a Independência Brasileira, que foram correspondidos entusiasticamente, pelas autoridades presentes e pela grande multidão que enchia o local.” (Costa, p. 43, 2000)

Na vila existiam muitos pequenos lavradores, sapateiros, alfaiates, além de professores particulares etc. Em 1829 foi aprovado, depois de uma elaboração lenta, adaptada as necessidades da vila de Paraty os Códigos de Posturas. Veja alguns artigos:

“Artigo 4°- Toda pessôa que tiver nas ruas e lugares publicos materiaes para qualquer obra, depois de obtida a licença na forma do Artigo 1° será obrigada a deixar livre o transito, a têr lampião acêzo nas noites em que não houver lua, desde o seu principio até as 10 horas, e sendo rua por onde costuma passar procissões, na ocasião destas será obrigada a tirar tudo quanto possa impedilas ou fasel’as menos decentes, pena de 1 a 2$000 reis de condenação a dobrar na reincidencia.” (Rameck, p. 9, 2004)

“Artigo 10°- Os que possuem terrêno ou chãos em aberto comprehendidos na rua nova da praia frente ao nascente de, Salvador do Couto frente ao sul e do Gragoatá e o Rio frente ao poente, serão obrigados a fechal-os com paredes rebocadas de modo a que neles se não facão despejos dentro do prazo de seis mezes: pena de 4$000 reis de condenação a dobrar na reincidencia e na terceira reincidencia serão fechados pelo Procurador da Camara a custa do proprietário; debaixo das mesmas penas obriga tão bem o presente artigo a todos os mais possuidores de chãos desde a dita rua do Gragoatá até o Campo da Lavagem a aterral-os e limpal-os unicamente.” (Rameck, p.9, 2004)

“ Artigo 52° - Os escravos que forem encontrados nas ruas e praças públicas a jogarem, serão castigados na cadêa a arbítrio dos senhorios e quando o senhorio não satisfaça, será multado em 1$000 reis, a dobrar na reicidencia.” (Rameck, p. 13, 2004)

E referente ao Título 2° – Tranquilidade e segurança publica –; Capitulo 1° – Loucos, embreagados e animaes¬ –; segue os artigos abaixo:

“Artigo 31º- Tôdo aquelle que der ou vender bebidas alcoólicas a pessôas já embriagadas será multado em 4$000 reis.” (Rameck, p. 19, 2004)

“Artigo 31°- É prohibido ter em lugares públicos animaes bravos que possão causar danno aos viandantes. Pena de 6$000 reis. Se o animal causar algum ferimento ou outra qualquer offensa física, será condenado seo dono em 21$000 reis de multa.” (Rameck, p. 19, 2004)

Um documento do livro de Registro de Ofícios da Câmara Municipal de 1837 conta um caso da prisão de dois escravos fugidos, os dois sem nenhum tipo de declaração que pudesse identificar seus donos, um escravo tinha o nome de Antonio e outro se chamava Pedro.

Sobre outros aspectos do cotidiano da cidade podemos citar, por exemplo, que em meados do século XIX decidiu-se fazer a construção da igreja matriz de Nossa Senhora dos Remédios, para isso a velha capela de SãoRoque foi demolida e o seu material foi aproveitado nas obras da construção da nova igreja. A atual matriz da cidade vem do século XIX e ela se integrava a Irmandade do Santíssimo Sacramento que organizava as despesas da igreja e cuidava também do uso do seu cemitério.

Durante muito tempo Dona Geralda Maria da Silva conseguiu manter as obras de construção da matriz com dinheiro advindo dos piratas. Nesse mesmo século o caminho velho voltou a ser transitado. Sua manutenção continuava difícil, merecendo um calçamento nos trechos piores.

Durante esta pesquisa consegui algumas informações sobre o cotidiano de povoados que não ficavam no centro da cidade de Paraty; onde hoje é o bairro de Tarituba existia nos séculos XIX e XX a Fazenda de Tarituba onde as pessoas dançavam com as roupas que usavam parta o trabalho, umas costuradas a mão outras em máquinas vindas da Inglaterra.

Homens e mulheres dançavam cada um com seu estilo de roupa como demonstra o trecho abaixo:

“ Os homens vestiam camisa branca de botão e manga comprida, lenço no pescoço, calça de cor escura e tamancos portugueses de salto de laranjeira (para não lascar facilmente na hora do sapateado). A tira de couro era pregada com o pêlo para dentro para não machucar os pés. Na cabeça, um chapéu de palha completava a indumentária do baile, muito parecida com o traje utilizado para pescar.
As mulheres trajavam saia de chita com estampas de flores coloridas, blusa branca de manga fofa, podendo ser comprida ou curta. Algumas dessas blusas eram lisas, outras caprichosamente com bordados, crochês, rendas ou fitas.
Para os pés as mesmas sandálias que eram utilizadas na missa de domingo, e para os cabelos um penteado cuidadoso, ora ornado com fitas, ora delicadamente preso com dúzias de grampos. Na orelha um única flor ajudava a emoldurar os rostos femininos, motivo de encanto dos rapazes enamorados.” (Tarituba, p. 56, 57)

Em Paraty existiam também as comunidades litorâneas, chamadas de caiçaras; formadas pela mescla da contribuição étnico-cultural dos indígenas, dos colonizadores portugueses e em menor grau, dos escravos africanos. No interior do espaço caiçara, em vários momentos da história foi importantes como centro exportador destaca-se o surgimento de Paraty.

Essas comunidades têm um cotidiano bastante peculiar, pois no litoral sul do Rio de Janeiro o modo de vida caiçara estava ligado diretamente à combinação entre as atividades de pequena agricultura, pesca e em alguns momentos, paralelo ao ciclo de cana-de-açúcar, com mão-de-obra escrava (século XIX).

“Mais visível que no litoral sul é a contribuição dos escravos a cultura caiçara, existindo em lugares como Mamanguá e Parati-Mirim povoados caiçaras/quilombolas que se estabeleceram com a desorganização das muitas fazendas de cana-de-açúcar da região.” (Diegues, p. 26, 2005)

As comunidades caiçaras tinham contatos e intercambio econômico e social com a cidade de Paraty, por via terrestre, fluvial e marítima.

As características culturais dos caiçaras de Paraty e outras regiões hoje conhecidas acabaram se consolidando em meados do século XIX e meados do século XX. A maioria dos documentos históricos dá ênfase à história de vida e eventos urbanos das grandes “famílias ilustres”.

Existem algumas referências documentais sobre a evolução urbana da Paraty durante o século XIX:” A cidade que hoje se conhece é resultado de importantes alterações em constante construção foi sendo embelezada e civilizada, num contínuo fazer e desfazer que até hoje persiste” (Mello, p. ,2004)
Existem informações sobre um novo campanário para a câmara:

“Provavelmente o Campanário Municipal é o que hoje está incorporado á Igreja de Nossa Senhora do Rosário, mesmo porque os rebates para a convocação de socorro continuaram até pouco tempo atrás. Os católicos mais fiéis têm o sino por abençoado, pois dobrando, aplicava as calamidades. Acredita-se que mesmo depois de estar anexado a igreja, o campanário continuou exercendo sua antiga função de aviso, além da religiosa.” (Mello, p.36, 2004.)


Algo que se pode considerar importante para se destacar é que a partir de 1840, vários imigrantes estrangeiros vieram para Paraty e se estabeleceram em diversos lugares como os franceses no Mamangá, alemães na Graúna, holandeses na Barra Grande e chineses no pouso da Cajaíba e Martim de Sá. Nesse mesmo ano o pelourinho foi demolido para ser feita uma reforma na rua.

Já no ano de 1841 estavam sendo organizadas na cidade festividades para comemorar a coroação de D. Pedro II, com certeza isso deve ter criado um alvoroço no cotidiano da cidade.

Em 1850 é mandado um oficio da câmara Municipal, para o governo da província dizendo que devido às noticias sobre os barcos ingleses com o pretexto de evitar e reprimir o tráfico de escravos acaba cometendo abusos, como por exemplo, aprisionam navios ancorados nos portos brasileiros, aproveitando-se de que as fortificações da costa estão em estado de ruína, sem abastecimento por isso os ingleses atacam. O presidente da câmara pede reformas no forte defensor que estava em ruínas, para tentar evitar que navios ingleses aprisionem barcos de comercio lícito da cidade.

Sobre a proibição do tráfico negreiro: “ Em razão da proibição do tráfico negreiro, o desembarque clandestino era feito em praias distantes e após a quarentena efetuava-se a venda. A chegada de uma lancha de inspeção na baia causou alvoroço na vila” (Mello, p.86, 2004).

Em 1851 foi concedido a Casa de Misericórdia da cidade de Paraty um terreno para que fosse feito um cemitério, e o cemitério seria organizado de acordo com a Lei de 1 de outubro de 1828: “Art. 3°- Ficão prohibidos, logo que esteja cercado e sagrado o espaço comprehendido para o cemiterio, os enterramentos fora d’elle a das castacumbas existentes.” (Mello, p.112,2004).

Existem documentos da câmara municipal de Paraty referente à iluminação pública durante meados do século XIX, onde se evidenciam que havia algumas regras sobre como a cidade ficaria iluminada; seria em determinados momentos.

A cidade era iluminada por lampiões, que ficavam acesos durante vinte noites do mês; era aceso ao escurecer e às quatro da manhã eram apagados. Quando algum lampião ficava com defeito, o conserto era custeado pela câmara municipal.

Em 1853 a câmara Municipal mandou calcular as despesas para o calçamento da Rua do Cragoatá; no mesmo ano foi feita a reforma da calçada da Rua do Commercio(rua que existe até hoje com o mesmo nome).

No jornal Tribuna de Paraty de 29 de novembro é possível conhecer a situação do município nesse ano, principalmente na questão política, veja a citação abaixo:

“Hade se proceder amanhã á eleição dos membros á Assembléia Legislativa Provincial aos vários districtos desta Província.
Conquanto nada tenhamos que ver com a economia interna dos partidos que se degladião pela posse do poder, pois não é de caracter político o nosso órgão, todavia não nos é nem deve ser indiferente a lucta que se hade travar amanhã no que ella possa dizer respeito a nossos interesses materiaes e moraes e affectal-os.
Cumpre que cada eleitor reflicta bem antes de depor na urna a sua cédula, e que tenha bem em mente que aquelle seo acto importa a nomeação de gestores da sua fazenda.
O nosso Municipio está decadente; as coisas mais urgentes necessidades têm sido descuradas, e mesmo desattendidas, quando reclamadas.
Há mister pôr de lado antigas usanças, de que não tem o paiz colhido menor proveito. O systema das candidaturas impostas, sobre o despotismo, é o reconheimento da incapacidade do eleitorado, que só pode saber o que mais lhe convém. O mais é uma disciplina servil, apenas compatível com uma civilisação vergonhosamente atrazada.
Nada de condescendências; quando se tracta de nomear quem deva gerir os nossos mais vitaes interesses, não tem ellas cabimento algum.
Muito folgaremos si o dia de amanhã coincidir com o advento de uma nova era de prosperidade para o nosso tão esquecido Municipio.” (Tribuna de Paraty, ano I, 1883).

Em 1877, houve a construção de uma ferrovia ligando o Vale do Paraíba, em São Paulo ao Rio de Janeiro, isso trouxe algumas conseqüências para a cidade, pois acabou ficando estagnada.

Em 1888 houve a abolição da escravidão e Paraty que era quase que auto-suficiente no seu abastecimento, passou a importar alimentos. As plantações de cana-de-açúcar foram aos desaparecendo, iniciando-se a plantação de banana e a pecuária nas antigas fazendas. Com a escassez de matéria-prima e a falta de mão-de-obra escrava, muitos engenhos de aguardente foram encerrando suas atividades; os tropeiros abandonaram as estradas dos guaianos. Com isso Paraty termina o século XIX numa total decadência e estagnação.


CONCLUSÃO

As indicações apresentadas neste texto são apenas algumas abordagens, sobre o cotidiano de Paraty durante o século XIX.

Evidentemente a primeira e mais óbvia conclusão que se pode tomar é que a cidade de Paraty sempre foi de estratégia importância para o país desde a “Idade do Ouro” como rota de escoamento do ouro, que impulsionou o desenvolvimento da cidade devido a grande utilização do porto de onde o ouro e pedras preciosas eram levados para Lisboa. Mesmo depois da diminuição da extração do ouro e a utilização de outra rota de escoamento, não afetou muito a dinâmica econômica da cidade, pois o porto continuou recebendo diversas mercadorias.

Durante o ciclo do café, Paraty dentro desse contexto inicialmente se beneficiou com altos lucros sobre a cultura do café, mas rapidamente devido a uma série de fatores a cidade acabou entrando num período de estagnação; abandono de fazendas; o alto preço do escravo; a terra não era muito boa, etc.

Paraty faz parte das cidades brasileiras que ainda conservam no núcleo histórico a arquitetura original da época de sua construção; a cidade ficou importante no século XVII devido ao caminho do ouro, alguns engenhos de açúcar; Paraty teve um dos portos mais importantes do Rio de Janeiro, depois veio o “ciclo do café” que inicialmente deu prosperidade a cidade, mas logo a seguir trouxe reflexos de decadência, mas as heranças culturais deixaram seus vestígios na cidade até hoje.

Acredito que o objetivo em desenvolver uma pesquisa que envolvesse aspectos do cotidiano paratiense ao longo de determinado período da história, no caso deste trabalho, século XIX tenha sido alcançado.

Pode-se concluir também que durante as pesquisas muito dos aspectos do cotidiano da cidade foram expressos através das reproduções de documentos da Câmara Municipal da cidade, como por exemplo, iluminação pública evolução urbana da cidade, documentos referentes a escravos, defesa da cidade contra os ingleses etc.

A cidade em meados do século XIX acabou entrando num período de declínio afetando o cotidiano da cidade, pois sua importância econômica estratégica estava desaparecendo, isso se perdurou até final desse século, é o que afirma um jornal de Paraty do ano de 1883. Neste século, existiram mudanças significativas em relação ao cotidiano de Paraty, como na urbanização da cidade, construção de igrejas, aprovação do código de posturas, o caminho velho votou a ser transitado, situação de escravos, descrição do cotidiano de comunidades que ficavam aos arredores da vila e etc.

As atividades no porto praticamente se esgotaram com a construção da ferrovia para o transporte do café, depois veio à abolição da escravidão que fez com que a mão-de-obra nas fazendas se tornasse escassa, com isso muitas fazendas deixaram de existir.

A disponibilidade de livros específicos sobre a história de Paraty facilitou a conclusão da pesquisa.

Espera-se que o presente artigo tenha contribuído para clarear aspectos do cotidiano de Paraty e que pessoas interessadas no assunto procurem buscar um maior aprofundamento nas pesquisas sobre o assunto, pois a história regional deve ser preservada para gerações futuras, para que a memória coletiva não se perca.


REFERÊNCIAS

COSTA, Samuel. Paraty no anno da Independência, outros textos e poemas, Org. Diuner Mello – Ed. Litteris, 2000.

DIEGUES, Antonio Carlos, org. Enciclopédia Caiçara- Volume 1: O olhar do pesquisador-Ed. Hucitec- NUPAUB-CEC/USP, 2004.

______________. Enciclopédia Caiçara, V.3: o olhar estrangeiro, Yan Breton... [et al]- São Paulo: Hucitec: NUPAUB, 2005.

MELLO, Diuner, Paraty e a Maçonaria, Ed. Litteris, 2006.

______________. Paraty Estudante, Guaratinguetá, SP: Frei Galvão Gráfica e Editora 2006.

MAIA, Thereza Regina de Camargo; MAIA, Tom. Paraty: para ti, guia cultural, Ed. Istilano, 2000.

NETTO, Pedro J. de Bulhões; BULHÕES, Simone Ferreira; NASCIMENTO, Antonio Eugênio do. Vamos indo na ciranda. Mestre Chiquinho de Tarituba: de Bailes e Histórias. Rio de Janeiro, RJ: DP&A ed., 2004.

O dia de amanhã. Paraty: Tribuna de Paraty, 29 de Novembro de 1883. ANO I, Num 23.

RIBAS, Marcos Caetano. A história do caminho do ouro em Paraty. Contest Produções Culturais, 2003

RAMECK, Maria José S.; MELLO, Diuner, org. Roteiro documental do acervo público de Paraty. Guaratinguetá, SP: Gráfica e editora Dias, 2004.

VIDOR, George, Um olhar sobre Angra e Paraty: povo, cultura e meio ambiente, Hamburg Gráfica e editora, 1999.

Um comentário:

  1. Paraty é realmente uma cidade incrivel, e quanto mais se conhece dela, mais ela se torna interessante! Parabens pelo blog, muito interessante!

    ResponderExcluir